domingo, julho 3, 2022
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A profecia que se cumpre por si mesma

Um dos maiores temores das comunidades universitárias das universidades públicas no Brasil é o receio de que as universidades possam ser privatizadas. Esse temor é, às vezes, ou muitas vezes, exagerado, o que leva servidores e estudantes a enxergarem privatização nas mais diferentes situações sociais. O governo de plantão defendeu corte de despesas em algum setor do orçamento das universidades e institutos federais? É um sinal de que vai privatizar. O governo de plantão quer discutir a melhor utilização de algum recurso no ensino público? É sinal de que pretende privatizar.

William Thomas, decano dos sociólogos americanos, formulou um teorema que nos
ajuda a entender a manifestação que os estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso têm feito para impedir o reajuste no valor das refeições servidas no restaurante universitário. Segundo Thomas, “se os indivíduos definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências”. Roberto Merton, também sociólogo americano, denominou as essas consequências não intencionais, a profecia que se cumpre por si mesma. O boato, falso, de que um banco pode falir, leva uma multidão a querer retirar seu dinheiro do banco, o que provoca a falência do banco. Uma definição falsa de uma situação provoca uma nova conduta a qual, por sua vez, converte em verdadeiro o conceito originalmente falso. Eis uma profecia que se cumpre por si mesma.

Na definição do orçamento das universidades federais alguns parâmetros são levados em consideração como número de alunos, produtividade dos professores, desempenho dos cursos de graduação e pós-graduação e outros. Sob o argumento manifesto de defesa da educação, uma prática social comum na Universidade Federal de Mato Grosso é a paralisação de serviços: os alunos impedem o acesso à universidade como estão fazendo agora, os professores e os técnicos fazem greves longas, tudo em nome da defesa da educação. E quanto mais greves e paralisações são feitas, mais os parâmetros que medem os desempenhos das universidades não são atingidos, o que diminui o acesso a recursos, que provoca mais paralisações e assim por diante nos levando profecias que se cumprem por si mesmas. A leitura política simplista das situações sociais provoca uma conduta que converte em verdadeira a leitura originalmente falsa.

Entre os dias 23 e 26 dessa semana, algumas audiências públicas foram realizadas para discutir a nova política de alimentação estudantil da UFMT. Um diagnóstico foi apresentado, mostrou-se que o número de refeições tem aumentado e que os recursos destinados à alimentação hoje são insuficientes para o volume de alunos, que cresceu nos últimos anos. Ou seja, não é mais possível custear as refeições a 1 real de maneira geral e, ao mesmo tempo, sustentar um grupo de estudantes que tem alimentação totalmente grátis.

UFMT RU

Engajados no preceito político que prometer distribuir vantagens para todos sem custos para ninguém, os estudantes querem manter a atual política de alimentação estudantil que têm vigorado há mais de dez anos. Para isso, têm impedido o acesso a vários setores da universidade.

O que significa manter refeições a 1 real e café da manhã a 25 centavos, mais o grupo de alunos que não pagam pelas refeições? Significa que o brasileiro pagador de impostos terá que destinar cada vez mais recursos para alimentação de estudantes universitários. Como não existe café da manhã nem almoço nem jantar grátis, significa que o recurso terá que ser retirado de outras áreas do montante de recursos para a educação.

Desde 2014, segundo o Ministério da Educação, o orçamento anual para as universidades e institutos federais é maior que o orçamento anual para outras demandas que não as do ensino superior, o que está levando o Ministério da Educação a se transformar em Ministério do Ensino Superior. A secretária executiva do MEC já declarou que o orçamento para custeio do ensino superior tem crescido de maneira insustentável. Dizer que é necessário ter mais recursos e fechar as universidades não resolverá o problema.

Uma alternativa é criar novas fontes de financiamento, por exemplo, aumentar os recursos próprios da UFMT e/ou cobrar por algum tipo de serviço. Infelizmente, todas as vezes que isso foi colocado em discussão, a comunidade universitária paralisou suas atividades apresentando a sugestão de discussão como ameaça de privatização. E novamente, com a universidade paralisada, os indicadores da UFMT para captação de recursos ficam comprometidos. E então a leitura da situação social originalmente falsa torna-se verdadeira. É um ciclo que se repete.

A multiplicação de campi de universidades e institutos federais pelo Brasil, com suas políticas sociais de serviços grátis, fez o custeio no ensino superior quadruplicar de 2009 para cá. Colocar a culpa no governo federal, no neoliberalismo e no golpe constitui uma estratégia que cria uma situação social real falsa, mas que terá consequências reais. O temor de não querer pagar por nada e não querer discutir a melhor utilização dos recursos pelo medo de que eles possam diminuir, parece, cada vez mais, uma profecia que se cumpre por si mesma.

André Luís Ribeiro Lacerda
Coordenador do Clique – Núcleo de Metodologias Quantitativas e Abordagens Biossociais. ICHS/UFMT, Campus Cuiabá-MT.
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