À primeira vista, aproximadamente 500 pessoas lotaram o auditório da área 4 da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) para ouvir um senhor de 72 anos falar de um futuro que provavelmente ele verá pouco. Isto apenas à primeira vista, é claro. David D. Friedman poderia enganar algum desavisado que se atentasse apenas a sua baixa estatura, seus poucos cabelos brancos arrepiados e suas roupas de “tiozão de férias”.

O público goiano, contudo, permaneceu duas horas sentado ouvindo, em inglês (e sua tradução simultânea), em uma noite de sexta-feira, o professor David Friedman esboçar um futuro incerto. A palestra “Futuro imperfeito: revoluções que podem acontecer” trouxe uma certeza: não há certezas sobre o futuro.

Baseada no livro de Friedman Futuro imperfeito: tecnologia e liberdade em um mundo incerto ¹ (tradução livre, sem edição brasileira), a palestra reservou-se o direito de não ser profética. Especula-se apenas que, dado os avanços tecnológicos atuais, em até trinta anos teremos um mundo com “mais liberdade ou mais escravidão”. Segundo o autor, o homo sapiens estará em um dilema nos próximos anos: evoluiremos de modo a nos tornarmos um pouco “divinos” ou sucumbiremos graças às nossas próprias criações.

Nosso estilo de vida de hoje talvez não será mais o mesmo no futuro: se as pessoas começarem a viver mais, o que será dos casamentos? Ainda haverá o “até que a morte os separe”? As leis se manterão para humanos que vivem mais de cem anos — neste ponto, onde entra a privatização de serviços públicos, visto que o governo está “acostumado” a cuidar de pessoas que morrem cedo. Uma pessoa poderá criar uma virose no quintal de casa por meio da bio e nanotecnologia?

Quando David Friedman escreveu este livro, em 2008, muitas tecnologias como inteligência artificial e realidade virtual estavam engatinhando. Segundo ele, o estado pode usar dessas modernidades para se manter e aumentar sua vigilância sobre as pessoas. Hoje é possível filmar quilômetros de ruas e estradas para rastrear alguém. E se o governo passar a vigiar os cidadãos por nanorrobôs implantados nos nossos corpos? As piores distopias podem ser o nosso amanhã, alerta o escritor.

Filho de peixe, nem sempre só um peixinho é

Para escrever este livro, David D. Friedman se valeu de sua graduação em física pela Universidade de Harvard e seu PhD na mesma área pela Universidade de Chicago. Ao contrário do que se pensa, ele nunca cursou economia ou direito, apesar de ensinar esta última disciplina na Universidade de Santa Clara (Califórnia, EUA) desde 1995. Sua proficiência em tais ciências se dá ao seu engajamento com o anarcocapitalismo e ao seu ambiente familiar. David é filho de Milton Friedman, ganhador do prêmio Nobel de economia em 1976 e fundador da prestigiada Escola de Chicago. Porém, não se engane: o filho não fica às sombras do pai.

Os interessados no anarcocapitalismo (ou anarquia de mercado, quando apenas o livre mercado age sem nenhuma interferência estatal) reconhecem em David Friedman um de seus principais expoentes. Frequentemente, ele é convidado para palestrar em eventos libertários nos Estados Unidos e em outros países. Seu primeiro destino ao Brasil neste ano foi o Simpósio Interdisciplinar Farroupilha (SIF), em Santa Maria (RS), no começo de novembro. Em seguida, Friedman viajou para Goiânia, Brasília e Rio de Janeiro.
Em Goiânia e em Brasília, suas palestras foram organizadas pelo Instituto Liberdade e Justiça, em parceria com o Students for Liberty Brasil, o Clube Bastiat (GO) e o Distrito Liberal (DF). O advogado Giuliano Miotto, presidente do Instituto Liberdade e Justiça, argumenta que a presença de Friedman nas universidades brasileiras é importante para a “oxigenação de ideias” na academia. “Ainda que não se concorde com ele, mas que você o escute”, aponta Miotto, “o importante é o debate”.

Em entrevista antes da palestra, David Friedman falou sobre o futuro incerto, as diferenças de suas ideias com as de Murray Rothbard (importante libertário e considerado o fundador do anarcocapitalismo), quais áreas deveriam ser privatizadas e o que o governo deveria deixar de fazer.

David Friedman em Goiânia
Friedman conseguiu um feito “raro” em Goiânia: prender a atenção de quase 500 pessoas por duas horas em uma noite de sexta-feira. (Foto: Rodolfo Pimenta)

SEU LIVRO E SUA PALESTRA FALAM SOBRE UM FUTURO INCERTO. COMO PODEMOS NOS PREPARAR PARA AQUILO QUE AINDA NÃO CONHECEMOS?

David Friedman: Eu penso que você pode olhar para as coisas que podem acontecer e tentar, o melhor que puder, se prevenir contra elas. Eu acho que é inútil e um erro controlar o futuro e isso é difícil demais de fazer. Você acaba desperdiçando muito esforço e talvez se defendendo do inimigo errado, por assim dizer. Mas eu acho que o principal é estar ciente de coisas que podem mudar bastante, não gastar muito tempo, energia e dinheiro em coisas que podem se revelar inúteis e então ver o que acontece e se adaptar a elas. É como surfar nas ondas do futuro e ver onde vai dar. Nós todos gostaríamos de pensar que sabemos o que vai acontecer, mas nós não sabemos.

Um tempo atrás, minha universidade teve uma ideia estranha sobre sustentabilidade e perguntou a alguns professores se eles gostariam de falar sobre isso e eu perguntei se eu poderia falar CONTRA a sustentabilidade. Eles não se importaram. Meu discurso está em minha página na Internet. Um dos pontos que eu fiz era se levássemos a ideia de sustentabilidade muito a sério significaria que continuaríamos fazendo as coisas do mesmo jeito para sempre.

Você tem que reconhecer que nós não vivemos em um mundo estático e não tem porque pedir para que façamos as mesmas coisas para sempre pois não iremos fazer as mesmas coisas para sempre. Uma das melhores coisas que podemos fazer é tentar adivinhar o que vai acontecer e tentar nos preparar, sabendo que há vários futuros possíveis e que iremos encontrar apenas um deles.

EM SEU LIVRO ‘THE MACHINERY OF FREEDOM’ ² VOCÊ DEFENDE UMA PRIVATIZAÇÃO GRADUAL DE SERVIÇOS CONTROLADOS PELO GOVERNO. POR QUE DEVERIA SER UMA REVOLUÇÃO GRADUAL, E NÃO VIOLENTA, COMO DEFENDIA MURRAY ROTHBARD?

David Friedman: O argumento que fiz contra a revolução violenta é que uma das maiores razões para as pessoas quererem um governo é para protegê-las de assassinatos, violências sexuais e outros tipos de coisas e se as coisas parecem mais caóticas, a tendência é que as pessoas apoiem mais governo e não menos. Para mim, o caminho para que haja menos governo seria uma troca gradual, ou eliminando serviços estatais, privatizando aquilo que antes era feito pelo governo.

Quarenta anos atrás, nos Estados Unidos, sugerir extinguir o serviço postal do estado seria uma ideia maluca. Quem iria empacotar e fazer as entregas? Hoje em dia, estas coisas são feitas pela UPS, pela Fedex e outras empresas. A única razão de haver um serviço postal estatal é que era contra a lei haver empresas privadas nesta área. O que pode-se fazer é remover tais leis e isto não seria uma mudança radical.

Eu gostaria de ver coisas parecidas em muitas outras áreas. Por exemplo, eu pego um caso que é realmente relevante para o Brasil e para os Estados Unidos. Existe um livro chamado The Beautiful Tree ³ que fala sobre escolas privadas de baixo custo em países pobres. O autor pesquisou escolas na China, na Índia e na África, onde tem escolas gratuitas, mas de baixa qualidade. Mesmo as pessoas sendo muito pobres, eles gastavam pouco dinheiro para estudar melhor, e não é muito caro fazer uma escola privada se esse realmente for o desejo.

Se não me engano, na Índia isso é ilegal, pois o governo diz que os professores destas escolas privadas devem ter o mesmo salário que eles pagam para os que trabalham na rede pública. Na Índia, pelos padrões do país, os professores recebem muito para fazer pouco. A proibição das escolas privadas é ignorada por lá. Por esses exemplos do livro, dá para ver que é possível fazer uma educação privada de forma que pessoas comuns possam pagar.

Eu não sei como é a educação pública no Brasil, mas eu ouvi falar que é bem ruim. Então se houver alguém fazendo isso, fornecendo boa educação por um preço acessível, é bem provável que pais vão desejar pagar por isso. Assim é mais fácil manter o governo fora dos assuntos escolares, quando alguém já está fazendo isso.

ALÉM DA EDUCAÇÃO, QUAIS SÃO OS SERVIÇOS QUE PODEM SER PRIVATIZADOS?

David Friedman: Eu tenho falado que de todas as coisas que o governo deveria fazer, a educação é uma das que ele não deveria fazer. Pelas mesmas razões, não queremos ver o governo atrás de jornais e editoras de livros. Controlando a imprensa e a publicação de livros, o governo controla as informações e o que os adultos podem saber. Assim como controlar a educação, o governo controla o que as crianças podem saber.

Das outras coisas que o governo pode fazer, como prevenir crimes, elas podem ser feitas de forma privada, mas acredito que é mais difícil. Executar leis é mais difícil. Já a educação é uma coisa que o governo faz com custo alto e baixa qualidade na maioria das vezes, então pode ser uma coisa que pode ser tirada dele.

Outras coisas que podem ser tiradas do governo são algumas leis que não precisam ser seguidas, que geram vários problemas pelos quais os Estados Unidos passam hoje, como a guerra às drogas. Das partes pobres das cidades, uma grande quantidade está na cadeia, o que significa que esposas não maridos, filhos crescem só com as mães e vários outros problemas.

Eu devo dizer que poderia haver uma lista das coisas que o governo não deveria fazer e aboli-las e das coisas que o governo faz muito mal e que deveríamos fazer no lugar deles. Eu incluiria na primeira lista a guerra às drogas, depois os programas agrícolas (que nos Estados Unidos fazem a comida ficar mais cara para ajudar os fazendeiros), a negociação comercial, e várias outras coisas. Na segunda lista, colocamos a educação e coisas que seriam um pouco difíceis de privatizar, mas nós iríamos desenvolver um jeito de fazer.

NOTAS

1. No fim da entrevista, Friedman pediu para que se divulgasse o link de seu site onde os leitores podem ler “Futuro imperfeito” inteiro e gratuitamente. A versão digital está em inglês.

2. “The Machinery of Freedom: guide to a radical capitalism” (“A maquinaria da liberdade: guia para um capitalismo radical”, em tradução literal, 1973) também não possui uma versão brasileira, mas Friedman também disponibilizou uma versão digital em inglês em seu site.

3. “The Beautiful Tree: A Personal Journey Into How the World’s Poorest People are Educating Themselves” (“A bela árvore: uma viagem pessoal de como as pessoas mais pobres do mundo estão educando a si mesmas” em tradução literal) foi escrito por James Tooley em 2009. Não existe edição brasileira, mas a Amazon Brasil tem o livro em seu estoque.

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