segunda-feira, outubro 25, 2021
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Condomínio Estrela Vermelha: uma experiência coletivista

Uma história sobre coletivismo e como ele é prejudicial para o desenvolvimento econômico e social

Seu João era um jovem senhor que a vida inteira trabalhou em sua marcenaria em uma pequena cidade do interior. Desde criança acompanhava seu pai, com quem aprendeu seu ofício, e sempre se orgulhou muito disso. Com muito sacrifício comprou alguns imóveis em sua cidade quando quase ninguém acreditava em seu crescimento. Sua esposa sempre foi muito boa costureira e era muito requisitada nas grandes festas de sua pequena cidade e nos municípios vizinhos. Naquela altura da vida já tinha sustentado um filho até se formar médico na cidade grande, na qual somente ia quando extremamente necessário.

Com o passar do tempo e depois de muito relutar resolveu, a pedido da esposa, arrendar sua marcenaria que, somado a alguns de alugueis que recebia de seus imóveis, lhe garantiriam uma boa renda para se mudar para a capital. Aproveitaria para descansar, ficar mais perto do filho mais velho, do neto que acabara de nascer e acompanharia a filha mais nova que estava ingressando na faculdade.

Eis que resolveu então comprar um pequeno apartamento em um grande condomínio de edifícios da capital. Disseram que ali era mais seguro e que, de certa maneira, lhe faria se sentir mais próximo da liberdade de sua pequena cidade.

Não lhe agradava muito o nome: “Condomínio Estrela Vermelha”, mas não se prendeu a este detalhe. Tinha uma grande área de lazer, longas piscinas e uma bela pista para caminhadas.

No primeiro ano as mudanças não lhe causavam estranheza. O condomínio cuidava da segurança e das relações entre as pessoas. Estacionar no local errado, festinhas barulhentas após as 22 horas e o cocô do cachorro na grama eram os principais problemas a serem enfrentados. Os assuntos das primeiras reuniões eram cordiais e serviam mais como confraternização entre os moradores do que como instrumento para resolver os pequenos conflitos entre os moradores.

Um belo dia, Seu João em uma de suas caminhadas matinais presenciou quando um grupo de mulheres pediram ao síndico a inclusão na próxima reunião do condomínio em pauta a possibilidade de instituir, como beneficio “gratuito” oferecido pelo condomínio, aulas de balé e futebol para as crianças menores. O argumento parecia plausível: haveria um custo muito pequeno quando o valor fosse rateado entre todos os moradores. Em contra partida o condomínio teria redução com gastos de manutenção, pois, as crianças, que em suas brincadeiras causavam pequenos danos nas paredes e no playground, gastariam o excesso de energia nestas atividades. Além do irrefutável argumento que eram atividades culturais e esportivas, coisa importantíssima na formação de qualquer indivíduo nesta fase. Seu João achou estranha aquela proposta. Não que não aceitasse a lógica dos argumentos mas ele não possuia filhos pequenos, e, portanto de uma maneira ou de outra, teria que pagar para os filhos de outras pessoas terem tais benefícios. No entanto, resolveu não criar confusão com os novos vizinhos por um valor tão ínfimo.

E assim foi feito. O síndico colocou em votação na reunião seguinte. Seu João também estranhou o fato de naquela reunião haver um número maior do que os poucos participantes usuais. Desta vez aquele grupo de mães idealizadoras da proposta se organizaram para participar e não precisou de muita gente para garantirem facilmente a maioria dos votos. Nascia ali o Amparo ao Esporte e Cultura Condominial.

Vendo a situação das aulas de balé e futebol dando certo e que o impacto financeiro no valor da taxa de condomínio era realmente muito pequeno, na reunião seguinte, uma moça muito simpática e bem articulada sugeriu nova pauta. Seguindo o raciocínio da primeira ideia, o condomínio deveria contratar uma enfermeira para ficar junto à pista de caminhada e poder aferir a pressão dos idosos que faziam uso diário daquele equipamento. Ela argumentava que seu pai tinha problema de pressão alta devido a uma vida inteira de tabagismo e como seu pai outros tantos também poderiam estar naquela situação. Calculado o custo, verificou-se que seria mesmo pequeno, uma vez que a profissional passaria apenas 4 horas de terça a sábado, complementando um turno que fazia em um hospital ali perto. Seu João sempre teve uma vida saudável, seja pela boa alimentação do campo ou pelo labor pesado da lida, e tinha a saúde de um jovem. Notou que apesar de ser atingido pela idade, aquela proposta não lhe serviria, até porque já tinha contrato com um bom plano de saúde. Mas o assunto foi colocado em pauta na reunião seguinte e não precisou de nenhuma mobilização para ser aprovado. Nascia ali o Sistema de Saúde Condominial.

No entorno daquele condomínio existiam vários bairros carentes com pouca estrutura. Nas datas especiais alguns moradores se reuniam para realizar ações de caridade naquelas comunidades. Seu João achava honrosa aquela atitude e em diversas vezes ajudou com brinquedos ou cestas básicas. Chegou a acompanhar o grupo em uma dessas ações, e ouviu quando algumas daquelas crianças pobres revelaram ser seu sonho poder um dia tomar banho nas piscinas do condomínio. O depoimento daquela criança sensibilizou vários presentes ao fato. Até que alguém teve a interessante ideia de instituir no condomínio o “Dia Livre” para as crianças carentes poderem frequentar o clube sem nenhum ônus. E como passariam o dia todo, o condomínio ofereceria um café da manha, almoço e jantar para cada uma delas. Afinal, o que tamanha caridade e benevolência impactaria ao final de um rateio por tantos moradores? Seu João, em seu íntimo não concordava com aquela proposta. Não por qualquer tipo de preconceito ou mesquinharia mas por uma questão do princípio de que o condomínio era uma propriedade privada. Aliás, adquiriu esse modelo de moradia justamente por isso. Mas resolveu se calar por medo de o julgarem como um homem maldoso e egoísta. Assunto aprovado na reunião seguinte. Nascia ali a Anistia Condominial.

Ocorre que com todas estas ações, as áreas comuns do condomínio passaram a ser muito frequentadas, até acima da capacidade para as quais foram projetadas, o que aumentou ao custo de sua manutenção. Seu João observou que o porteiro e o vigia já não estavam sós. Havia aumentado o número de seguranças durante as rondas diurnas e noturnas, o que faria todo sentido. Nascia ali o Sistema de Segurança Condominial.

Com o passar do tempo e aumento da circulação de pessoas, alguém da diretoria teve outra grande ideia que, inclusive, não geraria custos ao condomínio, mas sim aumentaria a comodidade de todos que ali moravam. Existiam algumas salas livres próximas ao salão de festas e ali poderiam ser instaladas uma Mercearia, uma Lanchonete e uma Farmácia. Seu João sugeriu aluga-las à comerciantes da região, mas logo veio um outro morador e indagou: “Por que não o próprio condomínio administrar e os ganhos serem revertidos a todos que aqui moram?”. E com aplausos e ovações, assim foi feito. Nasciam ali as Empresas Condominiais.

Após alguns poucos meses, Seu João recebeu uma confissão do síndico: as vendas dos estabelecimentos não eram as esperadas e o faturamento não cobriria as despesas operacionais dos comércios criados. Ele observou que a grande maioria dos moradores, quando não adquiriam os produtos antes de vir para casa, pediam por delivery, pois era mais prático, mais barato e ainda tinham mais opções de marcas.

Eis que surgiu um outro morador, muito culto e letrado, dando a seguinte ideia: o condomínio poderia cobrar uma pequena taxa de acesso aos entregadores, justificada pelos custos de segurança que se envolve ao permitir sua entrada no condomínio. Em contra partida os moradores perceberiam que sempre seria mais vantajoso adquirir produtos ali de dentro mesmo, considerando este novo custo. Dessa vez Seu João votou contra mas, tendo pouquíssimos presentes, a ideia foi aprovada por maioria simples (votação apertada) naquela reunião. Nascia ali o Protecionismo Condominial.

Durante um tempo houveram algumas reclamações, logo caladas, afinal, tais decisões estavam amparadas pela soberana democracia da Assembleia Geral do Condomínio. Seu João ficou sabendo que as vendas dos estabelecimentos condominiais realmente aumentaram por algum tempo, mas surgia um novo problema.

Como não havia um ‘dono’ para ficar de olho, vários furtos ocorriam. E mesmo vendendo mais as lojas sempre fechavam no prejuízo, que por sua vez era repassado no rateio das taxas do condomínio.

Para amenizar o caos das faltas nos estoques, mais uma vez surgiu uma revolucionária ideia. A criação de um setor de auditoria, onde seriam contratados profissionais gabaritados para cuidar de toda sistemática de controles, não só dos estabelecimentos comerciais, como das contas do condomínio. Afinal, aquela atividade já estava complexa para os poucos funcionários administrativos existentes naquele momento. Nascia ali a Controladoria Condominial.

Por falar em funcionários, o pequeno escritório administrativo já não suportava o número de pessoas que precisavam se acomodar para administrar o ‘bem comum’ de todos os moradores. Seu João, já muito ressabiado, participou da reunião onde decidiu-se pela construção de uma nova sede administrativa. Na opinião de alguns, é claro que não havia porque economizar nos materiais e arquitetura do novo edifício, afinal aquilo era um patrimônio de todos e valorizaria o condomínio. Mas para toda a pompa desejada, o caixa do condomínio não seria suficiente. Seria necessário um empréstimo bancário. E assim, mais uma vez, foi feito, com anuência da Controladoria Condominial e respaldado pela democrática Assembléia Geral. O financiamento seria a longo prazo e não pesaria “quase nada” no rateio. Nascia ali a Dívida Externa Condominial.

Seu João já estava muito intrigado com todas aquelas ‘taxas extras’ e acréscimos no valor do condomínio. Neste momento caiu sua ficha. O valor que antes praticamente não onerava seu orçamento mensal, passou a ser a sua principal despesa. O valor triplicou durante sua moradia ali. Mas as coisas, infelizmente, não pararam por ai.

Com o grande número de funcionários do condomínio àquela altura e com a exorbitante taxa de condomínio, surgiu a ideia da criação do setor jurídico para cobrar os inadimplentes e cuidar das várias ações trabalhistas. Como não poderia ser diferente, o valor do novo setor foi mais uma vez repassado aos condôminos. Aquele “quase nada” de aumento, passava a pesar cada vez mais. Nascia ali a Advocacia-Geral Condominial.

A administração do condomínio tornou-se uma atividade altamente complexa. Muitos setores a serem geridos, empresas internas a serem administradas, dezenas de funcionários. O síndico não tinha tempo para cuidar do condomínio (que antes fizera em suas horas vagas) e manter seu emprego regular. Assim, em uma próxima reunião foi estabelecido que o síndico, além de ser isento do pagamento de taxa condominial, deveria ser remunerado para se dedicar exclusivamente ao “bem estar” dos moradores. E para isso foi aprovado em “assembleia soberana” um salário para o Síndico. Nascia ali a Carreira Condominial.

As eleições condominiais se aproximavam, e, por coincidência o país atravessava uma grave crise econômica. Vários moradores, outrora bons pagadores, perderam seus empregos e já não conseguiam honrar a inflada taxa de condomínio.

Resultado: o condomínio que em eleições passadas mal conseguia compor chapa única, naquele momento já contava com pelo menos 5 chapas abarrotadas de candidatos. Seu João observou famílias cujos filhos brincavam juntos no playground chegarem a se indispor umas com as outras. Nasciam ali os Partidos Condominiais.

Promessas de todos os lados surgiram: implantação de cursos gratuitos de corte e costura, aulas de natação gratuitas, bailes para “terceira idade”, festas de Carnaval, São João, Dia das Crianças patrocinado pelo condomínio, etc. As ideias mais estapafúrdias tomaram conta das propostas. Cada uma com seu pequeno gasto rateado entre todos. Houve uma chapa que prometeu isentar a taxa para os moradores cujos chefes de família estivessem sem emprego ou ganhassem menos que a média. Tudo em nome dos votos dos indecisos.

Seu João, com sua pouca instrução formal, pensava de onde sairia tanto dinheiro para cobrir o que estava sendo prometido. Não precisava ser economista para prever que as contas nunca fechariam, e que os rombos do condomínio seriam cada vez maiores. Afinal, qual a motivação para fazer uma gestão eficiente, se o que se administra é algo que não é seu e não é para você? Pensou também na possibilidade do que aconteceria se um síndico desonesto ganhasse as benditas eleições, no caos instalado pelas “belas intenções” se tornando uma fonte inesgotável de corrupção.

Seu João naquele momento já havia se acostumado com a vida na cidade e nem sentia mais saudade do campo. Mas sentia muita falta daquele condomínio bucólico que escolheu para morar. Resolveu colocar seu apartamento a venda e procurar algum outro que o fizesse lembrar aqueles outros tempos quando tenha prazer de estar, de cumprimentar a todos nas caminhadas matinais, onde as reuniões de condomínio serviam para conhecer moradores novos.

Mas surpreso, descobriu que o valor de seu apartamento havia caído para menos da metade. Os corretores de imoveis lhe explicaram que as pessoas em geral procuram lugares para morar onde o custo fosse menor e houvesse paz entre os moradores. Nascia ali o conceito de Custo Condominial.

Seu João refletiu muito sobre tudo acontecido ao longo dos últimos anos naquele lugar e pensou que deveria ter feito alguma coisa na primeira reunião. Pensou como seria se, de alguma maneira, tivesse impedido aquele gesto que “não custaria quase nada se rateado entre todos”. Se cada um continuasse sendo responsável pelos seus próprios atos e decisões, se a administração não se metesse em cuidar de coisas que nunca tiveram experiência, se a vontade de cada indivíduo fosse mais importante que a do coletivo. Chegou a conclusão que todos seriam muito mais felizes como ele era no nascimento daquele condomínio. Nascia ali o senso de Liberdade Condominial.

Fernando Vasconcelos
Liberal por convicção, Analista de Sistemas especializado em Gestão Empresarial por formação e Empreendedor por natureza.
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