Coréia do Sul preservou a sociedade aberta e agora as taxas de infecção estão caindo

1564
Coréia do Sul

Qual é a melhor maneira para lidar com uma pandemia: quarentenas impostas pelo estado de acordo com a geografia ou manter a sociedade aberta enquanto confia em profissionais médicos, indivíduos, famílias e comunidades para tomar decisões inteligentes?

Há um mês essa pergunta teria sido puramente hipotética, mas a resposta nos Estados Unidos seria óbvia. Afinal, este é um país baseado em leis, com uma Declaração de Direitos, limites ao poder do Estado e uma confiança essencial na liberdade. Certo?

Como as coisas mudam em uma crise. Prefeitos e governadores de todo o país estão impondo quarentenas, não porque elas funcionem, mas porque não querem ser responsabilizados por não agir. Então, vamos considerar a questão essencial: o que funciona?

A Coréia do Sul registrou uma diminuição constante de novos casos de coronavírus na segunda metade da semana passada [02 a 08/03/2020]. O país teve o quarto maior número de casos no mundo. Não houve quarentenas geográficas impostas por guardas armados. Em vez disso, o único foco era testar amplamente e isolar os doentes.

Após a média de mais de 500 novos casos por dia até a última semana de fevereiro, entre sexta e domingo [06 a 08/03] os totais diários somaram 438, 367 e 248, respectivamente, de acordo com o Centro de Controle de Doenças da Coréia.

Como é que, sem mobilizar as forças armadas ou impor quarentena generalizada e forçada, a disseminação de coronavírus na Coréia do Sul parece estar diminuindo? Na verdade, há uma pergunta melhor: por que os EUA deveriam copiar a China e não a Coréia do Sul?

Os Estados Unidos atualmente estão no auge de um processo eleitoral e invocações arrogantes da Constituição e da Declaração de Independência são recorrentes (embora nem sempre coerentes). É claro, falar não custa caro – e custa mais barato ainda quando se trata de políticos. É em tempos de crise que a veracidade do compromisso de alguém com a liberdade e os direitos humanos é revelada. A diferença entre os EUA e a China é que a China não tem pretensão de reverência pela liberdade, nem pela inviolabilidade dos direitos individuais.

A Coréia do Sul está valorizando os direitos de propriedade privada para impedir a propagação do vírus, com os proprietários de edifícios afixando sinais de “sem máscara, sem entrada” e forçando seu cumprimento (imagine quantos americanos reagiriam a serem impedidos de entrar ou terem recusado o serviço de um local preferido, a critério exclusivo do proprietário).

Estações de teste drive-thru foram criadas em todo o país, através das quais os indivíduos, após um teste de dez minutos, são notificados em poucas horas se estão infectados. Um aplicativo de telefone de autodiagnóstico voluntário foi criado nos estágios iniciais da pandemia e centros de tratamento foram criados com o espírito de “quarentena suave”.

Principalmente, porém, os sul-coreanos estão agindo com base em sua experiência com a pandemia do H1N1 em 2009: eles estão lavando as mãos com frequência, fazendo um esforço para não tocar em seus rostos, usando máscaras e distanciamento social na medida do possível. O alto nível de acesso pessoal à tecnologia na Coréia do Sul torna o distanciamento extremamente praticável, dada a onipresença das telecomunicações por vídeo e outras tecnologias desse tipo.

Contraste isso com os desdobramentos nos poucos dias desde que a Itália colocou todo o país em quarentena. Os casos ativos aumentaram de 5.000 a 6.000 para mais de 8.500. As mortes por coronavírus aumentaram nesse mesmo período, de 366 para 631 (todos números de 10 de março).

É verdade que certos aspectos do manejo do surto pela Coréia do Sul violam direitos individuais, principalmente no que diz respeito à privacidade. O uso da vigilância por câmera e o rastreamento do telefone celular e da atividade bancária de indivíduos provavelmente infectados violam totalmente quaisquer princípios marginalmente liberais.

Mas o ponto predominante é que, com um toque muito mais suave – muito mais respeitoso com o cidadão do que em qualquer outro lugar, incluindo nosso próprio suposto bastião da liberdade -, o governo sul-coreano obteve resultados superiores às medidas autoritárias mais pesadas da China, Itália, EUA e praticamente todas as outras nações afetadas.

Praticando o que se prega

O vice-ministro da Saúde, Kim Gang-Lip, resumiu a premissa subjacente à abordagem do governo sul-coreano para impedir a disseminação do coronavírus: “Sem prejudicar o princípio de uma sociedade transparente e aberta, recomendamos um sistema de resposta que combine a participação pública voluntária com aplicativos criativos de tecnologia avançada.”

Enquanto a disseminação global do vírus ainda está se desenrolando e o surgimento de novas cepas pode colocar areia no mecanismo de política pública de Seul, atualmente os resultados falam por si.

Toda ação governamental que reduz a liberdade sob qualquer perspectiva gera custos, sejam elas praticadas em circunstâncias calamitosas ou ideais. A liberdade não é uma ideia apenas para os momentos fáceis. Adoramos e defendemos a liberdade porque funciona, em tempos normais ou em tempos de crise.

A rápida decisão entre a maioria dos países de mobilizar suas forças armadas, forçar o isolamento de comunidades, pressionar as empresas a diminuir seus serviços e paralisar o deslocamento individual revela precisamente o que suspeitávamos, mas não tínhamos certeza sobre nossas classes dominantes. Nossas liberdades são descartáveis quando essas mesmas classes dizem que são.

(Artigo publicado originalmente em 12/03/2020 por Peter C. Earle no AIER – American Institute for Economic Research. Traduzido por Paulo Henrique Grando e revisado por Douglas Gonzaga para o ILMT.)

SimSite Agência Digital

1 COMENTÁRIO

  1. Realmente não sei como você escreveu o “com um toque muito mais suave – muito mais respeitoso com o cidadão do que em qualquer outro lugar” logo depois do parágrafo anterior. Meu Deus, que horrível esta forma de agir na Coréia, espero que aqui permaneçamos na quarentena.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here