ENTREVISTA: Mesmo sofrendo ameaças, pré-candidatos dizem que vão continuar combatendo a corrupção

Ulysses Moraes e Juíza Selma foram alvos de diversas ameaças durante seus trabalhos

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Selma Arruda e Ulysses Moraes

Quase trinta anos após o retorno das eleições diretas para presidente, o Brasil ainda permanece distante de se livrar do principal inimigo do fortalecimento da democracia: a corrupção. Os pré-candidatos Ulysses Moraes e Juíza Selma Arruda, que foram alvos de ameaças de morte, continuam suas trajetórias no combate à corrupção e dizem não temer.

Ulysses Moraes foi e é responsável por denunciar diversos políticos e as falcatruas que fazem nos exercícios das funções. Já denunciou e derrubou aumentos de parlamentares, verbas, contratos.

Juíza Selma Arruda foi responsável por condenar e prender diversos políticos e criminosos no estado de Mato Grosso, entre eles o ex governador Silval Barbosa.

Pensando assim, tendo em vista que os pré candidatos possuem ideologias semelhantes e destacam-se por isso, a redação chamou os candidatos e conversamos com a Pré-Candidata ao senado, Juíza Selma e com o Pré-Candidato a deputado estadual, Ulysses Moraes. O assunto: corrupção e como combatê-la.

ILMT: A legislação brasileira dificulta o combate à corrupção e, em alguns casos, até a estimula. Os crimes praticados por corruptos e corruptores têm punições leves. É necessário mudar as leis, que são permissivas?

Ulysses Moraes: Antes de adentrar no mérito legislativo, o problema da corrupção no Brasil vai muito além de leis. O problema está na educação, enraizado nos aspectos culturais do brasileiro, se faz necessário uma reformulação da educação do brasileiro. Mas agora, respondendo à pergunta, as leis postas como estão hoje, incentivam a corrupção, vez que as penas pequenas e os inúmeros benefícios que têm o condenado acabam por dar a sensação de que o crime compensa. Portanto se faz necessário uma reforma. Inclusive o nosso movimento propôs uma grande reformulação que é o pacote anti-crime, que inclui por exemplo o endurecimento de várias penas, revogação de saída temporária – afinal é uma sacanagem com a sociedade ver a Suzane Richthofen saindo no dia dos pais e o casal Nardoni no dia das crianças – e a criação do crime de perjúrio para réus.

Juíza Selma: A legislação é toda voltada à facilitação da corrupção. Não se pode pensar numa legislação apenas punitiva, o ideal é que a corrupção seja prevenida e não há legislação de prevenção da corrupção no Brasil. Nós precisamos antes de tudo mudar a cultura das pessoas para que a legislação não seja tão necessária. Nos países que não há a cultura do corrupção, o tal jeitinho, a lei não deve fazer muita diferença. Quando acontece se usa a lei, mas o ideal ou a regra é que isso nunca deva acontecer. Eu peço antes de tudo, vamos mudar a cultura das pessoas com relação a isso. O brasileiro desde alguns anos atrás, em relação a corrupção, acha graça, acha que é normal e isso tem que acabar. É preciso fazer a conscientização das pessoas. Eu acho que a mídia deve ser direcionada para essa conscientização do mesmo modo que anos atrás ela conscientizava que fumar causa câncer. Se aplicarmos recursos na mídia para que os mesmos façam essa conscientização, certamente em pouco tempo nós teremos um outro Brasil.

ILMT: O governo federal tem quase o dobro de funcionários comissionados do que a soma dos EUA, Alemanha, França e Inglaterra. A Redução do número de cargos comissionados é uma maneira de evitar outros casos de corrupção? (Ex: funcionários fantasmas, nepotismo.)

Juíza Selma: Não acho necessariamente que nepotismo seja um incentivo à corrupção – ao contrário – penso que cargos comissionados da autoridade pública, se não forem fantasmas, não necessariamente devem ser inibidos. Agora o problema são os cargos em comissão em que se coloca pessoas em lugares determinados a fim de angariar fundos dentro de uma instituição pública via propina para pagamento de despesa de campanha ou mesmo para satisfazer interesses particulares. O nepotismo em si é um caso à parte que eu não vejo muito bem dessa forma como as pessoas enxergam por aí. Caso eu tivesse que escolher alguém de minha confiança para trabalhar comigo e se esse alguém fosse um filho, cunhado ou até mesmo meu marido eu poderia fazer isso desde que o mesmo prestasse o devido serviço. Então, eu acho que os funcionários fantasmas são o problema, da mesma maneira que os comissionados que são colocados em secretarias ou ministérios com a missão de arrecadar pagamento das dívidas de caixa dois também são.

Ulysses Moraes: sempre que diminuímos o poder do estado, estamos diminuindo as chances de corrupção. Quando se fala em redução de cargos comissionados, fala-se em tornar a máquina mais enxuta e eficiente. O que tem-se percebido é um excesso de cargos que se mostram desnecessários vez que contratam até fantasmas.

ILMT: As emendas individuais aos orçamentos públicos consolidaram-se como um dos principais instrumentos de barganha do Poder Executivo com o Legislativo, nas esferas municipal, estadual e federal. No Congresso, por exemplo, a cada sessão importante, a liberação de verba para as emendas é usada pelo governo federal como moeda de troca para ter apoio no Legislativo. Provocar uma mudança neste sistema de emendas individuais é uma alternativa para encurralar os oportunistas?

Ulysses Moraes: as emendas da forma que funcionam hoje são uma verdadeira vergonha. Não deveria haver essa ampla discricionariedade por parte do executivo, pois transforma votações em verdadeiros balcões de negócios. É necessária uma reforma urgente nesse sentido, o legislativo não pode ficar refém do executivo. Falando de um poder ficar refém de outro temos também o exemplo vergonhoso que são os órgãos de controle nomeados pelo executivo e legislativo, como o tribunal de contas, e as nomeações do STF pelo presidente, pois isso macula a independência dos poderes.

Juíza Selma: A forma como se trata as emendas parlamentares é uma vergonha… Você imaginar que não foi recebida denúncia contra o presidente da república corrupto graças a uma negociação de emendas em massa, logo as pessoas viram ali nitidamente a prática clara de corrupção. Essas emendas são negociadas de tal forma que as pessoas não percebem que aquilo ali é nitidamente corrupção. Então, não poderia haver possibilidade desse tipo de negociação. Agora, eu penso que uma reforma tributária não apenas na forma de arrecadar os impostos, mas também na forma de redistribuir, com a municipalização por exemplo, evitaria bastante esse tipo de ocorrência.

ILMT: Há uma corrente que diz que o “jeitinho brasileiro” está diretamente atrelado à corrupção na política. Quais são as raízes da corrupção e como combatê-la de forma eficaz?

Juíza Selma: Conforme eu já havia comentado na pergunta anterior, o ideal é que se retire das cabeças dos Brasileiros essa história de “jeitinho brasileiro” ou de temos de levar vantagem em tudo e fazermos as campanhas massivas de conscientização. Em Países que têm um índice pequeno de corrupção, nós não temos esse tipo de atitude e isso não é bonito nem normal, nem aceito e muito menos ensinado nas escolas. Eu penso que conscientização tem que ser do cidadão dentro de casa para que os pais ensinem seus filhos desde pequenos, para que você não possa jogar toda a responsabilidade sobre esse tipo de educação para a escola. O ideal é que os pais ensinem os filhos e que isso seja uma conduta desde o nascimento até a sua morte.

 Ulysses Moraes: É preciso de uma reforma no ciclo educacional do país, os investimentos no ensino superior são 3 vezes maior do que no ensino básico, isso está errado. A corrupção está entranhada nos costumes, desde as pequenas coisas até as maiores, mas uma mudança educacional pode sim trazer uma mudança comportamental na sociedade. Com uma educação básica de qualidade acredito que podemos mudar essa má fama de jeitinho brasileiro.

Sabemos que ambos foram ameaçados pelo combate à corrupção, tanto denunciando quanto julgando. O medo não afeta seus atos? Até qual ponto vale combater tal prática?

Ulysses Moraes: Deus está à frente de todos os meus projetos, sou muito temente a Ele, e tenho a plena convicção de enquanto Ele estiver comigo não tenho nada a temer. A sociedade quer e precisa de mudança, mas para isso precisa de alguém que coloque a cara a tapa, alguém que pegue no chifre do boi, coloco meu nome a disposição para ser o exemplo, para lutar contra os velhos costumes e a velha política. As ameaças? O risco? Me defendo com as orações.

Juíza Selma: Nunca tive medo mesmo recebendo ameaças, acho que nós recebemos missões e, na forma como se recebe essas tais missões, Deus também providencia a proteção para que você cumpra suas missões sem ter maiores percalços. Eu acho que nada que possa acontecer me tira do foco, apenas o que pode me tirar do foco é eventualmente a vontade popular que diga que eu estou errada. No entanto, acredito que o brasileiro está bem consciente e ciente do que é necessário. As pessoas estão cansadas da velha política! Então eu penso que nem julgando, nem legislando futuramente eu deva ter um tipo de medo ou dúvida sobre qualquer coisa.

SimSite Agência Digital

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