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O Cuiabano que inventou a Uber

Quem é liberal no Brasil já deve ter ouvido uma vez ou outra na vida alguém soltar a frase “Bill Gates ou Steve Jobs, se fossem brasileiros, ainda estariam em suas garagens”. Essa colocação é feita pensando na pesada regulamentação, no tempo de abertura de uma empresa, nas leis trabalhistas, enfim, em todo o aparato estatal que é usado para dificultar a atividade empreendedora no Brasil. Mas, será que a gente consegue encontrar um caso verdadeiro? Algum brasileiro que viu uma oportunidade de negócio ótima, mas que não foi pra frente pelos problemas próprios do Brasil e, algum tempo depois, a ideia bombou no mundo inteiro? Bom, eu conheço alguém assim, o nome dele é Anastácio Camargo, ou Tigrão.

Quem foi adolescente em Cuiabá lá pelos idos de 2010 com certeza sabe do que eu estou falando. Tigrão era um indivíduo que percebeu que táxi no Brasil era muito caro, pouco seguro, e prejudicava até mesmo taxistas que não conseguiam licença e precisavam pagar diárias. O que ele fez então? Começou um serviço de transporte privado de passageiros.

Era muito simples. Saindo da baladinha monstra (por exemplo), indo para o cinema de tarde, não importava muito o horário, era só pegar seu celular e ligar para o Tigrão. Ele tinha uma equipe de motoristas, cada um em seu próprio carro, e deslocava algum para te atender. Até aí tudo bem, né? Não muito diferente dos táxis. A semelhança acabava aí pois o serviço do Tigrão era MUITO mais barato que os táxis. “Dezão” era a palavra chave, quase que independente da distância que o motorista teria que percorrer. O segredo? O motorista no meio do caminho parava para pegar outras pessoas, por mais “dezão” até lotar o carro. Sim, Tigrão percebeu as vantagens do Uber Pool muito antes da própria Uber sequer existir.

Sabe as avaliações dos motoristas? Tigrão já fazia isso pelo menos dez anos antes. Ele te mandava um motorista, como uma central de táxi qualquer, mas se você ligasse pra ele depois e falasse “Pô Tigrão, o motorista lá correu que parecia que ia salvar a mãe da forca, achei que ia morrer”, esse motorista não atuava mais pelo serviço de transportes “Tigrão Express”. Aliás, o Tigrão tinha muito cuidado com a qualidade do atendimento, focando sempre no público alvo, geralmente adolescente. Fazia piadas e brincadeiras a rodo com os passageiros, tendo uma fidelização maior do que qualquer taxista jamais teve em Cuiabá. Um gênio do marketing talvez?

Continuando na atenção ao seu público alvo, Tigrão fazia amizades também com os pais dos passageiros. Várias mães de amigos meus aconselhavam os filhos a ligar e esperar (às vezes demorava bastante) o nobre empreendedor, considerando os perigos de se pegar táxi a noite na cidade e uma certa impossibilidade de controle de qualidade de motorista, ou mesmo de nível de atenção. Tigrão atendia as famílias, levava avós para o hospital, era motorista oficial de empresas, e pelo relacionamento tinha total confiança dos clientes.

Só para completar, o serviço de transporte do Tigrão, apesar de adorado pelos clientes, era odiado pelos taxistas, que expulsavam e ameaçavam os motoristas ligado ao serviço, além de exigir do estado que retirasse o serviço do mercado, considerando-o concorrência desleal.

Então vamos lá: serviço de transporte privado de passageiros, motoristas em seus próprios carros deslocados pelo celular para atender clientes com preços abaixo do mercado, atenção total para a avaliação dos motoristas com exclusão do mesmo da frota em caso de avaliação muito negativa, foco na qualidade de atendimento e no relacionamento com o cliente. Muito do que Tigrão praticava lá por 2008, 2009 em Cuiabá só foi surgir em larga escala com a Uber no mundo! O que aconteceu com ele então?

O final da história não é feliz, a última vez que eu ouvi falar do Tigrão ele tinha sido pego e acusado de diversos “crimes” como serviço de táxi clandestino e sonegação de imposto, teve carro apreendido, teve que responder processo, ficou um tempo sem trabalhar, desativou os telefones.

Não sei onde ele está hoje ou o que está fazendo, mas sei que se ele não estivesse no Brasil, se estivesse em um país que vê o empreendedorismo com bons olhos, que valoriza ideias inovadoras, Tigrão nunca teria parado um dia sequer de atender, teria seu serviço regular e legalizado, e cresceria muito. Não que ele se tornaria a UBER. Esta começou pequena, mas começou com uma grande expertise no mundo digital. Tigrão atendia quando o smartphone mal existia, além de não ter uma estrutura administrativa das mais sofisticadas. Podemo dizer, “na raça”. Agora, tenho certeza que a vida dele seria muito melhor sem as dores de cabeça que teve, e que hoje ele certamente poderia estar atendendo no mesmo modelo que atendia com muito mais clientes fiéis na cidade, uma frota maior, e nem se preocuparia com a concorrência da Uber.

Tigrão é um exemplo, um mártir do empreendedorismo brasileiro, a prova de que as boas ideias podem sim surgir no Brasil, e devem surgir todos os dias em alguma garagem ou em algum telefonema. Quantos Steves Jobs, Bills Gates, ou mesmo Tigrões o Brasil não mata todos os dias? Nunca saberemos, eles nunca tiveram a oportunidade de surgir.

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Heitor Santana
Publicitário, pós-graduando em Escola Austríaca, Coordenador do MBL em Mato Grosso e do Instituto Liberal de Mato Grosso.
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4 COMENTÁRIOS

  1. Acho legal alguém pensar em fazer esse tipo de analogia, até para fazer as pessoas pensarem um pouco. Entretanto, acho que a melhor forma de se questionar e combater algo é elaborando questionamentos sustentados por um silogismo verdadeiro (e esse termo é técnico, nada tendo a ver com verdades e mentiras). Afinal, isso não deixaria margem para que se pusesse em cheque a argumentação, certo? Assim, não dá para responsabilizar o sistema e(ou) o Estado por tudo que não funcione adequadamente no País. O Tigrão tinha, sim, espírito empreendedor, mas mantinha um serviço irregular, que jamais tentou formalizar. Seu serviço, portanto, era clandestino, e não se pode deixar de lado as considerações pertinentes ao caso, principalmente aquelas relacionadas à segurança e às responsabilidades legais, em caso de sinistro envolvendo passageiros. Adoraria ver o Tigrão prosperar, mas não se ppde dizer que ele tenha deixado de regularizar sua situação apenas pela dificuldade e pelo custo em fazê-lo. Como não era cobrado por isso, funcionou assim até quando deu, até o dia em que foi pego. O mesmo se pode dizer de alguns empresários que vivem questionando a elevada carga tributária, mas que recebem o imposto do cliente sem fazer o recolhimento posterior, retendo um dinheiro que NÃO é dele. Sou liberal, como você, mas também acho que, em alguns casos, pedimos demais ao Estado, esperando que ele tudo solucione, mas sem retribuir adequadamente à sociedade (e, por favor, que os fundamentalistas não busqurm pelo em ovo, tentando enquadrar esse comentário em uma caricatura socialista). Não é a toa que a redução de custo primeira, por aqui, deja a demissão. Bons negócios não são conduzidos dessa forma. Basta olhar para o país utilozado como exemplo – os EEUU.

    • Celso, o serviço do Tigrão não era irregular, ele estava registrado como Micro Empresa no ramo de transporte de passageiros, praticamente no mesmo segmento que a Uber se encontra registrado hoje em dia, se você pesquisar “Tigrão Express” no google vai encontrar dados relacionados ao registro de empresa dele. Ainda que devidamente registrado e em um ramo que hoje, sabemos, ser completamente regular, a prefeitura de Cuiabá não pensou duas vezes antes de tirar ele do mercado, da mesma forma que várias prefeituras, incluindo a de Várzea Grande tenta fazer com a Uber. Para a Uber é mais fácil lidar com esse tipo de situação, dada a sua atuação global e grande monta de recursos, para um empreendedor pequeno buscando o ganha-pão isso é impossível. Isso demonstra alias outra faceta da ação do estado prejudicando os empreendedores no Brasil, a reserva de mercado criada garante bons rendimentos aos grandes excluindo novos entrantes na concorrência.

  2. Celso, silogismo é uma das várias formas argumentativas, potanto, não pode ser verdadeiro ou falso. Ele pode ser válido ou inválido. O que pode ser verdadeiro ou falso são as proposições.

  3. O comentário do Celso Migurl demonstra e exemplifica a falta de consciência lógica em que praticamente toda população brasileira (mundial?) se encontra e, espantosamente, incluída ai a classe “intelectualizada”. Ora, por seu incrível raciocínio, na época da escravidão você seria a favor da mesma, haja vista que, este escárnio social denominada escravidão, era absolutamente legal! Entretanto o que importa em nossa vivência é aprender, fazendo uso da razão e da lógica, as verdades e ações corretas que se devem defender. A verdade é que a escravidão nunca foi correta, ele sempre foi, é e será errada, independente de alguma legislação estatal. Da mesma forma, no exemplo citado do Tigrão, não existiu erro algum do mesmo, não existe erro algum em adquirir um celular e um carro e usar para fazer transporte. raciocine e pense, onde está o erro? Se vosso argumento continuar sendo esse que ele não seguiu as regras estúpidas de uma prefeitura, que mantém todo sistema de transporte público num sistema de monopólio, ou seja só entra no “esquema” quem o sindicato e a prefeitura quiser, e mesmo assim pagando altas taxas, alugueis e impostos, você deve repensar esse seu posicionamento ”liberal”, pois na verdade você é um estatista e dos piores, do tipo que pensa que as leis devem ser seguidas por que as leis estão aí escritas por políticos, mesmo sendo elas na maioria das vezes posições erradas. Mas já que está escrito e o estado as “homologou” tá tudo certo!! Se fosse você um escravo, você estaria na maior passividade e tranquilidade, pois já que era a lei, tudo bem, fazer o quê, né!?

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