Um renascimento do anarquismo global pode superar os anos 1960

Protestos na Índia marcam outro surto de conflitos entre cidadãos comuns e autoridades

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De Calcutá a Santiago, o anarquismo está no ar. (Foto: Dibyangshu Sarkar/AFP/Getty Images)

A Índia explodiu em protestos contra uma lei de cidadania que discrimina explicitamente sua população muçulmana de 200 milhões de habitantes.

O governo nacionalista hindu de Narendra Modi respondeu com a polícia disparando contra manifestantes e agressões em campus universitários.

O incêndio global de protestos nas ruas, do Sudão ao Chile, do Líbano a Hong Kong, finalmente chegou ao país cuja população de 1,3 bilhão está abaixo dos 25 anos. As implicações sociais, políticas e econômicas não poderiam ser mais sérias.

Faz apenas um mês que estudantes do campus da Universidade Politécnica de Hong Kong jogaram bombas de gasolina na polícia e receberam de volta bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água.

Essa violenta resistência a um estado autoritário é novidade para Hong Kong. O Movimento dos Guarda-chuvas, que em 2014 expressou pela primeira vez um sentimento de massa por maior autonomia de Pequim, foi surpreendentemente pacífico. Os ativistas pela democracia em Hong Kong hoje também se distanciaram muito dos estudantes chineses que ocuparam a Praça da Paz Celestial em 1989, e com quem erroneamente foram comparados.

Os estudantes de 1989 respeitavam profundamente seu estado: as fotografias de estudantes protestando ajoelhados nos degraus do Grande Salão do Povo não são menos eloquentes do que a imagem icônica de um manifestante diante de um tanque.

Esse reconhecimento da autoridade do Estado como árbitro supremo agora está desaparecendo rapidamente, não apenas em Hong Kong, mas também na Índia e em muitos outros países. Ele está sendo substituído pela convicção de que o Estado perdeu sua legitimidade por meio de ações cruéis e malignas.

Os manifestantes de hoje, que são esmagadoramente jovens, são frequentemente comparados com os manifestantes franceses de Paris em 1968. Os últimos ocupavam locais de trabalho e estudo, ruas e praças. Eles também confrontaram a repressão policial com barricadas improvisadas e coquetéis molotov.

Como os manifestantes de hoje, os estudantes franceses explodiram em violência em meio a uma escalada global de brigas de rua; eles alegavam rejeitar os valores e as perspectivas de uma geração mais velha. E eles, também, não podiam ser simplesmente classificados como de esquerda, direita ou centristas.

De fato, os radicais franceses confundiram muitas pessoas na época porque detestavam o partido comunista francês quase tanto quanto os partidos da direita. Os comunistas franceses, por sua vez, desprezavam os estudantes que protestavam como “anarquistas”.
Esse pejorativo comum confunde anarquismo com desorganização. Devemos nos lembrar que o anarquismo político é uma das tradições políticas e intelectuais mais antigas, embora pouco lembradas, do mundo moderno. Hoje, ele descreve melhor a nova virada radical dos protestos em todo o mundo.

O anarquismo político começou a emergir a partir de meados do século XIX, originalmente em sociedades onde os autocratas cruéis estavam no poder – França, Rússia, Itália, Espanha e até China – e onde as esperanças de mudança nas urnas pareciam totalmente irrealistas.

Os anarquistas – um dos quais assassinou o presidente dos EUA McKinley em 1901 – buscavam a liberdade daquilo que viam como modos cada vez mais exploratórios de produção econômica. Mas, diferentemente dos críticos socialistas do capitalismo industrial, eles empregavam a maior parte de suas energias à libertação daquilo que viam como formas tirânicas de organização coletiva – ou seja, o Estado e sua burocracia, que, na sua opinião, poderiam ser tanto comunistas quanto capitalistas.

Como Pierre-Joseph Proudhon, o pensador pioneiro do anarquismo (e crítico robusto de Marx), declarou: “Ser GOVERNADO é ser mantido à vista, inspecionado, espionado, dirigido, orientado pela lei, numerado, matriculado, doutrinado, pregado, controlado, estimado, valorizado, censurado, comandado por criaturas que não têm o direito, nem a sabedoria, nem a virtude de fazê-lo. ”

Para muitos anarquistas, o Estado, a burocracia e as forças de segurança foram a afronta mais profunda à dignidade e à liberdade humanas. Eles procuraram alcançar as liberdades democráticas através de uma redução drástica do poder do estado (a cabeça da hidra) e uma intensificação simultânea do poder dos indivíduos abaixo dele através de ações coordenadas.

A democracia para os anarquistas não era uma meta distante, a ser alcançada por meio de partidos políticos verticalmente integrados, instituições impessoais e longos processos eleitorais. Foi uma experiência existencial, instantaneamente disponível para os indivíduos, desafiando conjuntamente a autoridade e a hierarquia opressivas.

Eles viam a democracia como um estado permanente de revolta contra o Estado supercentralizado e seus representantes e executores, incluindo burocratas e polícia. O sucesso nesse empreendimento foi medido pela escala e intensidade da revolta e pela força da solidariedade alcançada, e não por qualquer concessão (sempre improvável) das autoridades desprezadas.

É também assim que os manifestantes hoje parecem perceber a democracia enquanto lutam, sem muita esperança de uma vitória convencional, contra governos que são tão ideologicamente dirigidos quanto cruéis.

Não resta dúvida: conflitos mais abertos e insolúveis entre cidadãos comuns e autoridades provavelmente se tornarão a norma global e não a exceção. Certamente, hoje o descontentamento militante não é apenas mais extenso do que era no final dos anos 1960. Também denota um colapso político mais profundo.

Negociações e compromissos entre diferentes grupos de pressão e interesses que definem a sociedade política há muito tempo parecem subitamente curiosos. Os partidos e movimentos políticos à moda antiga estão desarrumados; sociedades, mais polarizadas do que nunca; e os jovens nunca enfrentaram um futuro mais incerto. Enquanto indivíduos revoltados e sem líderes se revoltam contra estados e burocracias cada vez mais autoritários, de Santiago a Nova Déli, o anarquismo político parece uma ideia cuja hora chegou.

Escrito por: Pankaj Mishra

Fonte: https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2019-12-18/a-global-anarchy-revival-could-outdo-the-1960-s
Acesso em 20/12/2019 20:00h

Traduzido por Rogério Pimenta para o ILMT

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